Já alguma vez entraste numa reunião importante com a sensação de que eras a pessoa que ali devia estar menos? De que, se a outra parte soubesse realmente quem eras, o que não sabias, o que ainda não tinhas conseguido, a conversa seria muito diferente?
Se a resposta for sim, não estás sozinha. E provavelmente não é a primeira vez que isto acontece.
A síndrome do impostor, o sentimento persistente de que o teu sucesso não é merecido, de que és menos competente do que os outros pensam, e de que é apenas uma questão de tempo até alguém perceber, foi descrita pela primeira vez em 1978 pelas psicólogas Pauline Clance e Suzanne Imes. Desde então acumulou-se evidência suficiente para perceber que afeta uma parte significativa da população, com particular incidência em pessoas de elevado desempenho, em ambientes competitivos, e em contextos onde a pessoa pertence a um grupo sub-representado.
Em negociações de alto risco, como as que acontecem entre empreendedoras e investidores, a síndrome do impostor não é apenas um desconforto pessoal. Tem custos negociais concretos e mensuráveis.
Como a Síndrome do Impostor Se Manifesta à Mesa
O problema com a síndrome do impostor é que raramente se anuncia de forma direta. Não aparece como um pensamento claro do género "não sou boa o suficiente para estar aqui". Aparece de formas mais subtis, disfarçada de humildade, de prudência, de realismo.
Manifesta-se quando qualificas excessivamente as tuas afirmações. Em vez de dizer "a nossa taxa de crescimento é de 40% ao mês", dizes "temos tido um crescimento razoável, à volta dos 40% mensais, embora haja variações". O número é o mesmo. A confiança com que o apresentas é completamente diferente. E a outra parte lê essa diferença.
Manifesta-se quando antecipas as objeções da outra parte antes que ela as faça, e as usas contra ti mesma. "Eu sei que o mercado ainda é pequeno" ou "percebo que a equipa ainda não tem toda a experiência que seria ideal" são concessões que ofereces antes de te pedirem qualquer coisa. Estás a negociar contra ti própria antes de a negociação começar.
Manifesta-se quando atribuis o teu sucesso a fatores externos. Quando o investidor comenta positivamente o crescimento da empresa e tu respondes "tivemos muita sorte com o timing" ou "a equipa toda merece o crédito", estás a desvalorizar ativamente a tua própria liderança no momento em que ela está a ser reconhecida.
Manifesta-se quando hesitas antes de dizer o teu número. Quando há uma pausa demasiado longa antes de apresentares a avaliação, quando o teu tom sobe no final como se estivesses a fazer uma pergunta em vez de uma afirmação, quando recuas logo a seguir com um "mas estamos abertos a conversar sobre isso". A hesitação é lida como insegurança, e a insegurança convida a pressão.
Manifesta-se quando preparas em excesso como forma de gerir a ansiedade, não como forma de estar melhor preparada. Há uma diferença entre preparar porque te dá clareza e preparar porque sentes que nunca sabes o suficiente para merecer estar na sala. O primeiro fortalece-te. O segundo alimenta o ciclo do impostor, porque por mais que prepares, a sensação de inadequação não desaparece com mais informação.
De Onde Vem Este Sentimento
A síndrome do impostor não nasce do nada. Tem contexto, tem história, tem razões que fazem sentido quando as olhamos de perto.
Para muitas empreendedoras, parte deste sentimento vem de operar em espaços onde são minoria. Quando entras numa sala de investimento onde quase todos os outros fundadores que passaram por ali eram homens, onde os casos de sucesso que o investidor cita são maioritariamente masculinos, onde a linguagem e os códigos de comportamento foram definidos por pessoas que não se parecem contigo, é natural sentires que não pertences completamente àquele espaço. Esse sentimento não é irracional. É uma resposta a uma realidade estrutural.
Para outras, vem de uma relação difícil com a visibilidade. Fomos ensinadas, de formas muito variadas mas muito consistentes, que ocupar espaço, falar com convicção sobre o nosso próprio valor, pedir reconhecimento pelo nosso trabalho, são comportamentos que não ficam bem nas mulheres. E quando fazemos isso em contexto de negociação, uma voz interior muito bem treinada comenta que estamos a ir longe demais.
Para outras ainda, vem de experiências reais de subestimação. Se já foste desvalorizada em negociações anteriores, se já te disseram que pedias demasiado quando pedias o que era justo, se já sentiste que a tua posição era questionada de formas que a de outros não eram, é compreensível que internalizes alguma dessa desconfiança e a tragas para as negociações seguintes.
Perceber de onde vem não resolve o problema. Mas ajuda a não confundir uma resposta aprendida com uma verdade sobre quem és.
O Que a Síndrome do Impostor Te Custa
Numa negociação, a síndrome do impostor tem custos muito concretos.
Custa-te dinheiro. Quando qualificas excessivamente o teu valor, quando recuas antes de te pedirem para recuar, quando aceitas uma proposta abaixo do que merecidas porque no fundo sentes que talvez não mereças mais, estás a deixar valor real em cima da mesa.
Custa-te posição. A confiança com que apresentas uma proposta influencia a forma como ela é recebida. Dois fundadores a apresentar exatamente a mesma empresa com exatamente os mesmos números vão ter resultados diferentes se um o fizer com convicção e o outro com hesitação. A perceção de competência é construída em parte pela forma como te apresentas, e a síndrome do impostor sabota essa apresentação.
Custa-te energia. O esforço cognitivo e emocional de gerir a ansiedade do impostor durante uma negociação é enorme. É energia que devia estar disponível para ouvir a outra parte, para pensar criativamente sobre soluções, para estar presente na conversa, e que está a ser gasta a gerir uma voz interior que diz que não deves estar ali.
O Que Fazer Com Isto
A síndrome do impostor não se resolve com autoconvencimento. Dizer a ti mesma "sou competente, mereço estar aqui" repetidamente não funciona, porque a parte do teu cérebro que alimenta o sentimento do impostor não é convencida por afirmações. É convencida por experiências.
O que funciona, e o que a investigação sobre este tema sugere de forma consistente, são abordagens mais concretas.
A primeira é separar o sentimento do comportamento. Não precisas de deixar de sentir que és uma impostora para te comportares como se não fosses. Podes sentir a ansiedade, reconhecê-la pelo seu nome, e agir de forma diferente do que ela sugere. A ação precede o sentimento muito mais frequentemente do que o contrário. É raro sentirmos confiança antes de agir com confiança. Geralmente acontece ao contrário: agimos, e a confiança vem a seguir.
A segunda é construir um ficheiro de evidências. A síndrome do impostor prospera no vago e no abstrato. Quando o sentimento é "não sou boa o suficiente", a resposta mais eficaz não é uma afirmação contrária mas uma lista de evidências específicas. Que resultados concretos conseguiste? Que problemas reais resolveste? Que feedback recebeste de pessoas cuja opinião respeitas? Ter esta lista escrita, e consultá-la antes de negociações importantes, não elimina o sentimento mas cria um contrapeso factual que o torna menos dominante.
A terceira é preparar-te para os momentos de maior vulnerabilidade. Há momentos específicos numa negociação onde a síndrome do impostor tende a aparecer com mais força: quando tens de dizer o teu número pela primeira vez, quando a outra parte hesita ou faz uma contra-proposta muito abaixo do esperado, quando surge uma pergunta para a qual não tens resposta imediata. Antecipar estes momentos e ter uma resposta preparada, não para a pergunta mas para a tua própria reação, ajuda a não seres apanhada desprevenida quando a voz do impostor aparece.
A quarta é usar a preparação como antídoto, mas com consciência. Preparares-te bem para uma negociação reduz genuinamente a ansiedade porque substitui o vago pelo concreto. Quando sabes o que vais dizer, quando tens os dados, quando antecipaste as objeções, a sensação de inadequação diminui porque há substância onde havia apenas ansiedade. A ressalva é não entrar no ciclo de preparação infinita onde preparar se torna uma forma de adiar o momento de estar na sala.
A quinta, e talvez a mais importante, é expores-te. A única forma de construir evidências reais de que consegues estar naquelas salas e sair bem delas é estando naquelas salas e saindo bem delas. Cada negociação que conduzes, independentemente do resultado, é uma experiência que alimenta a parte do teu cérebro que sabe que pertences ali. Com o tempo, e com exposição suficiente, o sentimento do impostor não desaparece completamente mas ocupa menos espaço.
Uma Nota Para Quem Se Reconhece Nisto
Se chegaste ao fim deste artigo a reconhecer-te em muita coisa que foi dita, há uma coisa importante que quero deixar clara.
A síndrome do impostor não é evidência de que és uma impostora. É frequentemente evidência do oposto: de que tens consciência suficiente para reconhecer o que não sabes, de que tens padrões suficientemente elevados para sentir que ainda não chegaste onde queres, de que te importas o suficiente com o que fazes para teres medo de não estar à altura.
Estas são qualidades. O problema não é tê-las. O problema é quando impedem que o teu valor real chegue à mesa.
E esse problema tem solução.